A transformação do sector financeiro não começou com a IA generativa ou as criptomoedas, mas com a necessidade de explicar e estruturar uma revolução que estava prestes a chegar. Pablo Blasco, Diretor da Fintech Espanha, O Dr. G. K., consultor estratégico com mais de 25 anos de experiência e autor de “Fintech Banking”, passou mais de uma década a observar de perto esta evolução e a ajudar os bancos e as fintechs a navegarem nela. No The Fintech Podcast, analisamos com ele as ondas que mudaram a banca, os modelos de colaboração que realmente funcionam e as capacidades que irão moldar os próximos anos.

Pablo Blasco,“O futuro da banca não passa por sistemas mais simples, nem por esconder a complexidade atrás de um clique; a verdadeira revolução é construir a infraestrutura para que as pessoas possam viver a sua vida financeira sem esforço.”
Diretor da Fintech Espanha.
De 37 startups a um ecossistema consolidado
Quando Pablo decidiu criar a Fintech Spain, o mapa espanhol apenas mostrava cerca de 37 empresas de fintech e uma clara falta de formação sobre o que estava a acontecer. O objetivo do grupo de reflexão era precisamente destacar estes novos modelos de negócio através de eventos, livros, formação e projectos que aproximassem a inovação financeira do mercado e não apenas das salas de reuniões.
Desde então, o ecossistema evoluiu, deixando de ser visto como uma ameaça à banca tradicional para se tornar um espaço onde coexistem fintechs, grandes empresas de tecnologia, empresas de telecomunicações e até fabricantes de automóveis, Todos desejosos de oferecer serviços financeiros. Esta diversidade obrigou a uma mudança na forma de entender a concorrência, a regulamentação e, sobretudo, a colaboração.
As pessoas no centro: lições de mais de 150 projectos
Depois de trabalhar com mais de 150 empresas, Pablo resume as suas aprendizagens em duas ideias: as pessoas devem estar no centro e as organizações precisam de equilibrar a prospeção e a exploração. Sem equipas alinhadas capazes de “olhar para fora”, qualquer iniciativa de inovação abranda e o medo da mudança aumenta.
Insiste também no facto de o conhecimento estar hoje distribuído por muitos “outsiders” que nem sempre estão nos circuitos formais de eventos ou de publicações, mas que fornecem perspectivas fundamentais. Para tirar partido deste facto, as empresas devem criar uma forte capacidade de absorção: detetar sinais externos, traduzi-los em oportunidades e integrá-los em produtos e processos sem perder a motivação interna.
Dos robo-consultores à IA: que ondas são realmente importantes?
Na entrevista, Pablo analisa as principais ondas que moldaram a última década: robo-advisors, open banking, criptografia, blockchain e inteligência artificial. Embora todas elas tenham contribuído, ele acredita que a combinação da IA e das novas infra-estruturas (como a cadeia de blocos) terá o maior impacto no risco de crédito, A gestão do risco de contraparte e a eficiência operacional.
A sua opinião é clara: o mundo financeiro não está a tornar-se mais simples, está a tornar-se mais complexo... mas essa complexidade está escondida atrás de um único clique. O desafio para os bancos e as fintechs é concentrar toda a cadeia de valor numa experiência simples para o utilizador: desde o pagamento ou o financiamento até aos dados, à conformidade e à análise avançada.
Tecnologia e funcionalidade: Integrações como Bizum e suporte local a IBAN
Para o Pablo, os neobancos, como o Nubank ou o Revolut, são já actores bancários de pleno direito e representam uma nova forma de relacionamento com o dinheiro. A sua vantagem não reside apenas nas funcionalidades, mas também no facto de aproveitarem o melhor da banca tradicional e de o melhorarem radicalmente em termos de automatização, experiência e proposta de valor.
Um dos conceitos-chave que menciona é o da “Amazon com um comprador pessoal”: os utilizadores querem que tudo o que pode ser automatizado funcione por si só, mas esperam orientação humana quando enfrentam decisões complexas, como poupar a longo prazo ou contrair uma hipoteca. Quem compreender este equilíbrio entre o self-service inteligente e o aconselhamento humano estará melhor posicionado, quer se trate de um banco estabelecido ou de uma fintech.
Colaboração entre bancos e fintechs: da fachada ao plug & play
Pablo distingue claramente as verdadeiras colaborações das que são apenas uma montra. Os modelos que funcionam são aqueles em que a inovação está diretamente ligada a objectivos empresariais claros e às necessidades das unidades empresariais que a utilizarão efetivamente.
Neste contexto, destaca o potencial da Banca como Serviço e dos modelos plug & play, que permitem às empresas de sectores como a educação ou os jogos oferecer pagamentos, carteiras e outros serviços financeiros sem serem elas próprias bancos. Exemplos como o da Oxxo, no México, que lançou a sua própria fintech para rentabilizar a relação com o cliente, mostram como o controlo do utilizador final se torna o principal ativo estratégico.
Histórias de sucesso silenciosas que vale a pena ver
Para além dos grandes nomes, Pablo menciona vários casos menos visíveis que estão a resolver problemas muito específicos: Belvo no open banking para a América Latina, Indexa Capital como um gestor automatizado que cresceu com prudência e concentração, ou a Fintonic como pioneira na agregação e otimização financeira para particulares.
💡Pablo disse...
“Estou a falar de startups espanholas e também de algumas britânicas que ajudaram realmente a abrir caminho. Porque, claro, ‘sucesso’ agora, entre aspas, é relativamente cómodo, não é?”
O autor refere ainda projectos centrados na inclusão financeira dos migrantes ou infra-estruturas de pagamento, onde as fintechs espanholas conseguiram integrar-se com grandes bancos como parceiros tecnológicos. Mesmo que nem sempre façam manchetes, estes casos provam que há espaço para modelos rentáveis, especializados e estreitamente alinhados com as necessidades dos utilizadores.
“Fintech Banking”: um guia holístico para o futuro das finanças
O livro “Fintech Banking: las finanzas del futuro y el nuevo mundo del dinero” nasceu da falta de uma visão verdadeiramente abrangente do ecossistema em espanhol. Pablo pretendia um quadro que ajudasse engenheiros, advogados, economistas e estudantes de finanças a compreenderem a forma como a banca aberta, as finanças abertas, a web3, a IA e os novos modelos de negócio financeiro se articulam.
O seu objetivo era organizar as arestas do “poliedro fintech” e fornecer uma linguagem partilhada que facilitasse a comunicação entre bancos, fintechs, empresas tecnológicas e reguladores. O resultado é um guia prático que leva o leitor da infraestrutura à experiência do cliente, tendo sempre em mente que a inovação deve ser compreensível para o utilizador final.
Olhando para 3-5 anos à frente: tendências e talento
Olhando para o futuro, Pablo sublinha o papel da IA cognitiva, da descentralização, da Bitcoin como conceito e das credenciais digitais verificáveis na evolução da banca inteligente. Todas estas tendências apontam para um cenário em que muitos serviços financeiros serão incorporados noutras experiências digitais, longe da agência tradicional ou da aplicação bancária.
Para o talento, o seu conselho para quem quer construir uma carreira na fintech é combinar três pilares: uma visão holística do sistema, um conhecimento profundo dos produtos financeiros e uma verdadeira compreensão do impacto da tecnologia. Além disso, acrescenta uma boa dose de paciência para navegar num sector altamente regulamentado, onde as mudanças estruturais levam tempo, mas acabam por ter efeitos muito profundos.
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